O Vento nasce na serra, é madrugador, cantor e jovial.
Logo de manhã cedo, por entre o arvoredo, com a sua voz de cristal, cantava:
– É Natal! É Natal!
A Neve que mora ao lado, ouviu tão linda canção que pensou:
– Vou buscar o meu véu e, com ele, irei cobrir o chão.
Depois de fazer o serviço, viu que o que fizera estava deslumbrante, mas não tinha luz… Era meia-noite.
Olhou para o céu e viu uma estrela cintilante. Então pensou:
– Vou pedir à estrelinha que me dê luz. E lá foi…
Depois de ouvir o pedido, a estrelinha respondeu:
– Vai, que eu já vou atrás.
Desceu e foi ter com a Neve e com o Vento. Quando os encontrou, mostrou-lhes Jesus, deu-lho e disse:
– Tomai a luz! Nasceu Jesus!
Eles ficaram sem poder falar.
A Neve queria aconchegá-lo com o seu véu, enquanto o Vento, ao ver tão lindo Menino, disse:
– Nós somos pobrezinhos e queríamos dar um beijo nos vossos pezinhos.
O Menino brincou com os pezinhos e deu-lhos a beijar.
A Neve continuava a compor o véu, enquanto o Vento olhava para o Menino.
– És tão lindo! Quem foi que te fez assim?– perguntou o vento.
A Neve continuou a compor o véu e Jesus respondeu:
– Foi meu Pai que está no céu.
– E a tua Mãe?– perguntou a Neve.
– Está em Vila Nova de Ourém.
Entretanto, a estrelinha disse ao Vento:
– Vai acordar Portugal e dizer-lhe que é Natal!
As crianças acordavam e iam felizes ver os presentes do Pai Natal, mas as mães explicavam:
– Não foi o Pai Natal… Foi o Menino Jesus! Logo vós ides agradecer no presépio da igreja.
E as crianças perguntavam:
– O que lhe havemos de dar?
Um disse:
– Eu levo-lhe uma bola!
– Mas ele não sabe jogar!– respondeu o outro.
– Eu dou-lhe o meu triciclo!– disse mais um.
– Mas ele não sabe andar!– respondeu a mãe. – Vamos cantar uma canção:
“Oh meu Menino Jesus,
Boca de requeijão,
Dá-me a tua merenda,
Que a minha mãe não tem pão”.
A certa altura, apareceram os meninos do céu.
São Pedro abriu-lhes a janela e eles cantaram alegremente:
“Oh menino Jesus,
Vem para ao pé de nós.
Desde que foste embora,
Estamos sós”.
O Vento continuava a assobiar de forma leve e espontânea:
– Acordai, é Natal!
A Neve ainda não cobria o chão. Estava tudo tão lindo…
A determinada altura, o Vento perguntou à Neve:
– Onde é que o Menino Jesus vai ficar?
– Onde ele quiser.– respondeu a neve com leveza.
– Fico ao pé da minha Mãe, em Belém.– afirmou o menino.
Ao mesmo tempo que tal alvoroço acontecia, um menino chamado Francisco ouviu um dos seus colegas a cantar, enquanto brincava com a Neve:
“Oh meu amigo, dá-me a minha mãe e o meu pai, pois dizem que sois vós que os têm lá”.
De seguida, deparou-se com o pobre rapaz a construir as bolas de neve e a levar um pedaço à boca. Sem pensar duas vezes, Francisco levou o pobre rapaz a casa, onde lhe ofereceu pão com requeijão.
Logo depois, o menino foi ao presépio agradecer pelo ocorrido:
– Jesus, obrigado pelo pão. Já me fui consolar.
De imediato, a Neve disse ao Vento:
– Vou guardar o meu véu.
– Porque haverias tu de guardar o teu véu que tão deslumbrante é?– perguntou o vento.
– A minha missão era tirar a fome a uma criança para a fazer feliz, assim sendo o meu compromisso está realizado.
Ao ouvir tão bondosa resposta, o Vento declarou:
– Eu terei que ficar, pois sem mim as pessoas não podem respirar e as rosas não podem desabrochar.
Por fim, o Vento passou suavemente pela Neve despedindo-se dela.
Conto da autoria da utente: Aldina Saraiva Lemos